Por que fugir do que se gosta?
Desde pequena eu gostava de cozinhar. Sempre por prazer, pois a rotina, aquilo que se TEM QUE FAZER... hum, dessa eu não gosto não! Se não me engano, a primeira receita que tomei nota foi de uma cobertura de bolo de cenoura de uma amiga de minha mãe, Bela. Ela fazia um bolo daqueles tradicionais, que a cobertura era de açúcar e não de leite condensado. Depois veio o "Note e Anote", o programa apresentado pela Ana Maria Braga na TV Record, que durava a tarde inteeeira e eu brigava com minha mãe por deixar a TV ligada naquele programa chato, pelo menos para mim. Mas isso foi até eu ser pega por um culinarista e suas receitas especiais. Como se fosse hoje, lembro do Álvaro Rodrigues ensinando a fazer uma deliciosa torta de limão, daquelas que quando você aprende a fazer, sente uma pontinha de vergonha por já ter dito que achava uma delícia a tal que leva só uma camada de recheio e uma pataca de merengue em cima, rs. Mas o Álvaro... nossa, super cuidadoso, super atencioso (mesmo pela tv) e ele é daqueles tipos seguros, que passam dicas, truques, segredos, pulos do gato e bizús e suas receitas são do tipo que você pode e deve fazer de olhos fechados, pois VÃO DAR CERTO! E se der errado, saiba que o problema foi do clima, do fermento ou da azeitona, mas nunca, NUNCA da receita do Álvaro, pois ele, meus caros, não erra.
E desde que o conheci (reforçando que somente pela TV, infelizmente) que me vi envolvida nesse mundo de receitas e eu tinha uns 12, 13 anos de idade. Lembro do meu pai que não aguentava mais ver bilhetinhos na geladeira, pedindo que ele deixasse R$ 5 ou R$10 em casa para que eu comprasse o que estivesse faltando para por em prática alguma receita nova. Ah, sim, "comprar o que estivesse faltando", isso era bem comum, pois lá em casa não tínhamos uma despensa muito farta... a verdade é que nem tínhamos despensa... E inclusive por conta disso deixei de fazer muita receita, por ser mais cara. Também lembro de quando trabalhei no "Censo 2000" e logo que ganhei meu pagamento, quase R$300 (acredite, na época era um bom valor), corri para o supermercado: com notinha na mão, comprei os ingredientes da "Trança aos 4 queijos". Esta era uma das receitas que eu nunca tinha feito porque era cara demais para minha realidade. Pela primeira vez na vida comprei e experimentei gorgonzola e gastando quase R$50, comprei tudo o que precisava e fiz a receita que até hoje provoca briga em família e desperta o lado mais egoísta do ser humano, pois todos querem guardar o pedaço maior para comer depois, rs. Quem lê pensa que é uma família de obesos, mas não, exceto eu, são todos "normais".
Com o tempo fui crescendo e cada vez me aprimorando mais e testando receitas, umas mais gostosas do que as outras. Já aceitava "trair" o Álvaro e tinha receitas dos mais diversos culinaristas. Mas com tanta comida, minha luta contra a balança piorava e sempre fui acima do peso, do tipo "cheinha", daquelas que as pessoas falam: "ah, mas você não é gorda", ok, mas nenhum 40 ou 42 cabia em mim e por causa disso, quando um tio quis pagar um curso completo (no Senac) para mim, eu pensei: "não dá, se eu seguir nessa vida vou virar uma bola!" "e definitivamente não quero isso para mim". Juntando esse motivo principal a alguns outros, não aceitei a oferta e comecei a fugir daquilo que mais gostava de fazer. Certa vez enrolei TODAS as minhas pastas e também os cadernos de receitas com papel pardo e amarrei com barbante, me proibindo assim de querer fazer qualquer coisa. De fato, foi quando consegui levar uma dieta adiante e emagrecer consideravelmente. O tempo foi passando e como comecei a trabalhar, não tinha mais "saco" para fazer nenhuma receita, queria tudo pronto, mas vez ou outra fazia algo e no trabalho mesmo, em datas especiais presenteava os colegas com trufas (do Álvaro Rodrigues) ou brownies (do... Álvaro Rodrigues) e todas as vezes as pessoas elogiavam muito e diziam: "por que você não faz para vender?" e de tanto ouvir isso e de ver que mesmo fugindo da culinária minha briga com a balança continuava, resolvi, ainda que muitos anos mais tarde, ouvir os conselhos e atender aos pedidos. Cá estou, humildemente, com muita dedicação, carinho e preocupação com o resultado de tudo o que ofereço aos meus clientes. Mindê um pedido e eu te dou um pouco de alegria!
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